terça-feira, 3 de abril de 2007

crise aérea: outros olhares

Leia um olhar mais jornalístico e menos editorializado do que a cobertura dos jornais brasileiros sobre a crise aérea, (no caso, texto do El Pais). Sintam a diferença:


"Lula gana una batalla al caos aéreo
El presidente brasileño se impone a las autoridades militares al negociar con los controladores en huelga
JUAN ARIAS - Río de Janeiro - 02/04/2007

El presidente brasileño, Luiz Inácio Lula da Silva, ganó el sábado una importante batalla al impedir que la Fuerza Aérea diese orden de encarcelar a 50 controladores de vuelo militares que se habían amotinado y entrado en huelga de hambre la noche del viernes, lo que llevó al cierre de todos los aeropuertos del país con el consiguiente caos de pasajeros desesperados.

Luiz Inácio Lula da Silva.- EFE

Brasil
A FONDO
Capital:
Brasilia.
Gobierno:
República Federal.
Población:
182,032,604 (2003)
Ver cobertura completa
La noticia en otros webs
webs en español
en otros idiomas
Blogs que enlazan aquí
Lula quiso imponerse a las autoridades militares de la Fuerza Aérea a sabiendas que su veto iba a ser criticado y obedecido a regañadientes, para evitar que el país entrase en un caos mayor y que se generalizase en la sociedad el malestar de los pasajeros en los aeropuertos.
Junto con el veto para evitar la detención de los controladores amotinados, hubo un acuerdo entre la Fuerza Aérea y el Gobierno en virtud del cual los controladores, todos, militares ?el 90% de la plantilla? y civiles, ya no estarán directamente bajo el mando de la Fuerza Aérea, sino del Ministerio de Defensa. Se creará un nuevo órgano, el Centro de Control de Circulación Aérea General, de carácter civil, que quedará vinculado exclusivamente al ministro de Defensa. El presidente Lula ha prometido firmar el martes un decreto ley que regulará la transferencia de 1.500 de los 2.400 controladores aéreos militares al nuevo órgano de control civil.
Las características concretas de la desmilitarización del gremio serán concretadas hoy en una reunión en la que participarán el presidente Lula, los ministros de Defensa, de la Casa Civil y de Planificación, además del comandante en jefe de la Fuerza Aérea.
Los controladores aéreos, que también han ganado su batalla, serán recibidos mañana en el palacio presidencial para discutir sus reivindicaciones. Los medios de comunicación publicaron días atrás las denuncias ?anónimas por miedo a represalias? de varios controladores, que señalaron las dificultades con las que trabajan, los peligros que corren los pasajeros y su deseo de ser desmilitarizados como en tantos otros países del mundo.
Los militares han obedecido las órdenes del presidente Lula, pero han querido dejar constancia de su opinión en un comunicado oficial, en el que aceptan que los controladores sean desmilitarizados, pero también afirman que "la posición del Comandante de la Fuerza Aérea, Juniti Saito, y de todo el Alto Mando Militar era que los controladores de vuelo se habían amotinado [durante la huelga del viernes], lo que constituye un delito, al ser militares, y que, por tanto, tenían que haber sido encarcelados"."

de como ficar aéreo diante dos fatos

Do blog Mino Carta, para boas reflexões sobre as análise da nossa mídia:
02/04/2007 16:09Sem condição de decolar
Ah, a rebelião dos sargentos... Mais, muito mais que o enredo do apagão aéreo, enésimo ato da tragicomedia brasileira, convoca a atenção minha e dos meus botões o comportamento da mídia nativa em relação às mais recentes decisões do presidente Lula. Não digo que me espante, ou que me surpreenda de leve, ou que me cause alguma perplexidade. Está claro que não. A mídia nativa é personagem de primeiríssimo plano na tragicomédia brasileira. Tocha e cordas, pratico a espeleologia interior, intima, pessoal. Que sinto neste momento? Talvez uma espécie de melancolia cívica ao constatar que, de verdade, o País não tem a mais pálida condição de decolar. Não são os aviões, é o Brasil, entregue a esta chamada elite, a esses donos do poder que nunca se põem, igual a sol eterno. O editorial do Estadão de hoje, por exemplo, tem a ventura de me rejuvenescer 43 anos. Lá está a “quartelada” que despreza “os princípios basilares da hierarquia e da disciplina”. Ricardo Noblat (tu quoque?) é mais preciso, na sua qualidade de atilado jornalista. Anota que Lula lembrou dos começos de 1964, “quando João Goulart passou a mão na cabeça dos sargentos em greve”, daí houve mais um empurrão para o golpe de 1º de abril. Eliana Cantanhede, na Folha de S.Paulo de domingo, evoca Nostradamus. O governo, diz ela, se indispôs com a cúpula militar, e só o tempo dirá se foi “bom negócio”. E eis a conclusão, pressagio de chuva preta: “A historia costuma dizer que não”. Pincei três exemplos. Há inúmeros, porém, intermináveis. Em todas as passagens há um toque suave de esperança, no gênero “não é tempo para golpes”, ou “a democratização já deitou raízes”, ou “aquele passado não volta”. A reprimenda a Lula é escancarada, no entanto, como se ele estivesse a brincar com o fogo e a submeter risco irreparável ao País e a Nação. Percebe-se, como sempre, a intenção de alvejar o governo, o preconceito de classe, se não for ódio mesmo, ali se mescla com o sonho de desforra depois da derrota tucana. Mas há também, notável, transparente, a incapacidade de entender que ao presidente de uma Republica autentica, e entendida como tal por seus cidadãos, cabe perfeitamente tomar certas decisões e que sua autoridade é infinitamente superior àquela, especifica e circunscrita, de generais, brigadeiros e almirantes. Tenho a granítica convicção, corroborada pela pronta anuência dos meus botões, de que a larga maioria dos cidadãos não tem consciência republicana, a começar pelos graúdos e dos seus menestréis midiaticos. Desmilitarizar o controle aéreo, medida salutar, sem duvida. O caos terminará nos aeroportos. Vai continuar, contudo, na cabeça dos senhores, e é isso o que me preocupa. Ou melhor, me entristece.enviada por mino

O tema da violência de novo...

Repito meu argumento, já desenvolvido neste blog. O buraco é sempre mais em baixo, mas será que os menores não estão "assumindo" muitos crimes praticados por "maiores", para livrar a caras desses últimos? Veja matéria abaixo e reparem que o que aumenta são os crimes mais violentos...
"Crimes de menores crescem 20% em BH
Maioria de ocorrências na Vara da Infância e da Juventude é de roubo e tráfico. Faltam vagas em centros de internação
Izabela Ferreira Alves - Estado de Minas

O número de atos infracionais cometidos por adolescentes em Belo Horizonte aumentou 20% nos dois últimos anos. Em 2005, o Judiciário abriu 3.560 inquéritos contra menores e, no ano passado, 4.206. Nem todas as representações se transformaram em processos. Segundo a juíza Valéria da Silva Rodrigues, da Vara Infracional da Infância e da Juventude, o aumento foi isolado. “Recebemos cerca de 800 inquéritos por mês e 600 deles se tornam processos. No geral, não podemos falar em crescimento da violência”, afirma. Ela diz que a maioria das ocorrências está relacionada ao porte de armas, roubo e tráfico. “Esses atos caminham juntos, acompanhados do aumento do uso de drogas”, acrescenta. A juíza considera que os dados indicam maior eficácia da polícia e critica um dos principais programas de prevenção à criminalidade infanto-juvenil, o Fica Vivo. Contrariando dados do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a juíza afirma não perceber redução de homicídios nas áreas em que foi implantada a iniciativa. “O Fica Vivo foi criado para combater assassinatos, mas devia ter foco voltado para as principais causas das mortes: o tráfico e o porte ilegal de arma”, destaca. Em 2005, foram cometidos 65 homicídios por adolescentes e 74 em 2006. De outubro de 2005 a outubro de 2006, foram mortos 1,4 mil menores. Conforme o delegado Robson Vilela Gomes, chefe interino da Divisão de Orientação e Proteção à Criança e ao Adolescente (Dopcad), o número de atos infracionais de menores cresceu entre 25% e 30% nos dois últimos anos. “O pior é que houve aumento entre 30% e 40% dos crimes violentos”, lamenta. A Dopcad recebe por dia, em média, 15 adolescentes em conflito com a lei e, desde a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, houve avanços, na opinião do policial. “O estado tem feito investimentos, mas municípios e governo federal têm que agir de forma mais incisiva”, ressalta. De acordo com o subsecretário de Atendimento a Medidas Sócio-Educativas, da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), Ronaldo Pedron, as vagas para cumprimento de penas em regime aberto são de responsabilidade das prefeituras. “Os centros de internação são o último recurso. A reinserção social com cumprimento de medidas em meio aberto é muito mais eficiente”, salienta. Em Minas, há 300 adolescentes em cadeias. Para resolver o problema da falta de centros de internação, o estado, desde 2003, investe na interiorização das vagas. Naquele ano, eram apenas 400 e, hoje, já são 800. “Nossa meta é oferecermos 1 mil vagas até o fim do ano, mas é importante destacar que a prevenção, em parceria com as secretarias de Estado de Educação, de Assistência Social e outras, vem sendo desenvolvida, paralelamente, e apresenta bons resultados”, diz. De passagem pela Vara Criminal da Infância e da Juventude, um adolescente de 16 anos falou dos motivos que o levaram, com outros dois colegas, a assaltar várias pessoas às margens da Lagoa da Pampulha, com um revólver calibre 32: “Parei de estudar, meu pai foi assassinado e minha mãe me deixou. Moro com uma irmã e não acho justo ver todos os bacanas com dinheiro e eu passar aperto”, alegou. "

sábado, 31 de março de 2007

43 anos depois de 64

Hoje é dia: 31 de março. Há 43 anos, nessa data, os militares brasileiros, como forte apoio social e com pouca resistência; aliás praticamente nenhuma, derrubaram um governo constitucionalmente legal e jogaram o Brasil em uma longa noite de terror, agravada pelo golpe dentro do golpe dado em 1968. Tristes recordações. A boa notícia é que neste ano os comandantes militares, ao contrário de todos os anos anteriores desde 64, decidiram não divulgar a famosa nota oficial auto-elogiosa ao golpe. Menos pior. Para marcar a data, transcrevo abaixo o belo e longo poema de Tiago Melo, poeta amazonense, redigido logo após o golpe, diretamente do exílio no Chile. Belo e esperançoso. Vale a pena lembrar:

"Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964"

sexta-feira, 30 de março de 2007

A poesia nos alivia

Não sei quantas almas tenho
Fernando Pessoa
"Não sei quantas almas tenho.Cada momento mudei.Continuamente me estranho.Nunca me vi nem acabei.De tanto ser, só tenho alma.Quem tem alma não tem calma.Quem vê é só o que vê,Quem sente não é quem é,Atento ao que sou e vejo,Torno-me eles e não eu.Cada meu sonho ou desejoÉ do que nasce e não meu.Sou minha própria paisagem;Assisto à minha passagem,Diverso, móbil e só,Não sei sentir-me onde estou.Por isso, alheio, vou lendoComo páginas, meu ser.O que sogue não prevendo,O que passou a esquecer.Noto à margem do que liO que julguei que senti.Releio e digo : "Fui eu ?"Deus sabe, porque o escreveu."

Racismo na UNB

"Primeiro, eles vieram atrás dos comunistas.E eu não protestei, porque não era comunista.Depois, eles vieram pelos socialistase eu não disse nada, porque não era socialista.Mais tarde, eles vieram atrás dos líderes sindicais.E eu calei, porque não era líder sindical.Então, foi a vez dos judeus.E eu permaneci em silêncio porque não era judeu.Finalmente, vieram me buscar.E já não havia ninguém para protestar."(Martin Niemoller, pastor protestante alemão, sobre os nazistas durante aSegunda Guerra Mundial)
Sinal dos tempos? Na UNB, Universidade Nacional de Brasilia, idealizada pelo Darcy Ribeiro e considerada uma das melhores do país, um episódio lamentável e perigoso. Colocaram fogo, à noite, nas portas dos alojamentos de estudantes africanos que estão estudando através de convênio naquela Universidade. Espera-se apuração e punição ao troglotidas envolvidos. Esse é um exemplo que não pode prosperar. Já assistimos a este filme.

nada do que é humano me é estranho

Abaixo o post irretocável de Carlos Brickmann sobre o triste episódio da prisão nos EUA do rabino Henry Sobel. Ao que tudo indica, ele vem passando por um problema grave de pertubação mental. Ao que devemos lembrar da frase que dá título a esse post. Ela é da lavra do romano (antigo, do Império) Terencio e foi citada pelo também antigo Karl Marx. É uma ode à tolerância e à compreensão dos nossos limites, miseravelmente humanos.

"O roubo e o rabino
Quando Vladimir Herzog foi torturado e morreu na prisão da ditadura, trêsreligiosos comandaram a reação popular que culminaria com a volta àdemocracia: o cardeal d. Paulo Evaristo Arns, o reverendo Jaime Wright e orabino Henry Sobel. Quando, de acordo com o laudo oficial da morte,Vladimir Herzog seria enterrado na ala dos suicidas do Cemitério Israelitado Butantã, o rabino Sobel interveio, rejeitou a tese oficial do suicídioe garantiu um sepultamento normal. Quando muita gente foi marcada paramorrer pelos torturadores, o rabino Henry Sobel participou da montagem deum esquema para salvá-los, tirando-os do país. Quando se decidiu registrarpara a História o que ocorreu na época das torturas, no livro Brasil NuncaMais, um jornalista, Ricardo Kotscho, e três religiosos, d. Paulo, oreverendo Jaime Wright e o rabino Henry Sobel viabilizaram o projeto.O que aconteceu com as gravatas é visivelmente o resultado de um surto: umproblema mental – que, esperamos, seja temporário – ou derivado deremédios levou o rabino Henry Sobel a um ato ilegal, idiota, sem sentido.Um incidente lamentável, mas uma nota de pé de página numa biografia quaseimpecável." http://www.brickmann.com.br/